Seja porque os anos vão passando e a experiência se acumula inexoravelmente, seja porque a democracia me apanhou completamente formado, este espectáculo da eterna repetição inerente à vida democrática, não cessa de me espantar. Os três ou quatro actos eleitorais previstos, sucedem-se e os eleitores inventam piedosamente, de cada vez, um pretexto novo, que lhes alimente a ilusão de uma possibilidade real de mudança.
E, agora, os referendos. Simulacros, roçando o patético, em que se mima a devolução da soberania ao povo. Episódios de um obscurantismo tolerado a pretexto da equidade do sistema e, valha a verdade, dessa ancestral hipocrisia política a que poderemos chamar o complexo de Pilatos. Os mesmos políticos que se pretendem incapazes de entender aquilo que o cidadão vulgar já percebeu há muito, ou seja, que a mãe de todas as prioridades é a formação básica para a cidadania (a ministrar de preferência com o primeiro leite materno), multiplicam actos de contrição em que clamam a fé inquebrantável no discernimento popular e nas virtudes da democracia, como se isso fosse inato na espécie humana e os dispensasse dos investimentos correspondentes.
E é um estendal de actos de fé e procissões em favor de um direito à vida que todos sabem não estar em causa. Vociferam uns para assegurar a surdez a que a exclusividade do argumento obriga, e os outros calam razões, temerosos da respectiva complexidade argumentativa e das intolerâncias primárias que por aí abundam.
Contudo, não deixa de ser extraordinário verificar que, tanto inquérito, tanta projecção e estudo sociológico depois, nunca se tenha tentado estabelecer relação entre quem defende o não e quem, por exemplo, sustentou a legitimidade da invasão do Iraque ou apoia a pena de morte (ou, nos países que a aboliram, sustenta aqueles que a defendem nos países em que ainda se aplica) …
“O Sexo e a Cidália” crónica serena, bem-humorada e iconoclasta do DN sintetiza exemplarmente a questão em referendo: trata-se tão-somente de decidir sobre a maturidade dos cidadãos para determinar a IVG. Quem a admite será pelo sim. Pelo não será quem não reconhece tal discernimento ao cidadão.
Não deixa de ser curioso que a questão seja posta a referendo…
Eu já decidi: TALVEZ. Sou, de facto, por esse talvez que é a soma de dois sins: SIM incondicional pelo direito à vida em todas as circunstâncias sem excepção (pena de morte, guerra, doença) e SIM irrestrito pela responsabilização do cidadão (aborto, eutanásia, suicídio). A vida é apenas um direito, não uma obrigação.
Sábado, Janeiro 27, 2007
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3 comentários:
olá
se gostas de cinema vem visitar-nos em
www.paixoesedesejos.blogspot.com
todos os dias falamos de um filme diferente
paula e rui lima
Estive ausente e agora que voltei encontrei o blog abandonado, estava na expectativa de encontrar o penso rápido repleto de novas informações, opiniões, pensamentos e fiquei triste.
A minha vida é apenas um direito, não uma obrigação. A minha vida é um direito meu - apenas. Não tenho o direito de matar ninguém.
Eu já decidi: TALVEZ - pela soma de um SIM e um NÃO. NÃO ao aborto - a responsabilidade é do próprio - não se deve/pode roubar a vida a ninguém.
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